segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

O Grande Presente

Faltava menos de uma semana para o André fazer 8 anos de idade, mas ele nem parecia se lembrar disso, pois andava muito atarefado em falar com a Associação de Gatos Perdidos e Abandonados, a AgpA.
Dirigindo-se até à cozinha onde se encontrava a mãe...

– Mamã, gostaria que me ajudasses numa coisa.

A mãe olhou para o André e percebeu que algo o incomodava.

– Sim filho, diz – respondeu a mãe.
– Gostaria que me ajudasses a escrever uma carta para a AGPA. É que eu já tentei falar com a Sra. Regina, mas parece que tem sempre o que fazer, nunca tem tempo para falar comigo – explicou o André à mãe.
– Um gato?! – Disse a mãe apanhada de surpresa. – E já foste à Associação? – Continuou a mãe.
– Porque é que queres um gato? – Perguntou a mãe.
– Gostava de ter um gatinho aqui em casa. – Disse o André. – Podes falar com a Sra. Regina, ou escrever-lhe? – Perguntou o André com os olhos bem abertos.
– Acho que primeiro teremos que falar com o pai, não te parece? – Questionou a mãe.

Quando o pai chegou, já o André se encontrava às voltas na sala de estar, super impaciente.
– Olá pessoal, cheguei! – Disse o pai, enquanto pendurava o seu chapéu.
– Olá lindo. – Disse a mãe, saindo da cozinha.
– Olá paizinho. – Disse o André.
– Temos uma coisa para falar contigo. – Disse a mãe.
– Sim paizinho, e é muito importante. – Disse o André.

O pai ficou surpreso e ao mesmo tempo curioso por ver aqueles olhos castanhos do André bem arregalados. Dirigiram-se os três até à cozinha e enquanto se sentavam para dar início à refeição do jantar, o André começou a falar.
– Paizinho, gostaria muito de ter um gatinho aqui connosco. – Disse o André. – Tentei falar com a Sra. Regina, responsável pela Associação dos gatos, mas ela tinha sempre muito trabalho e nunca pude falar com ela. – Continuou o André.
– Bem, já vi que tens tudo planeado. – Disse o pai do André, espantado.
– Sim, acho que sim. – Respondeu o André com um belo sorriso.
– E sabes o que representa ter um gatinho aqui em casa? – Perguntou o pai.
– Sim eu sei que é necessário tratar do gatinho. Ele vai precisar muito de mim. – Respondeu o André.
– Sim, tens que estar atento à hora em que ele come, limpar o cesto onde fará as suas necessidades, bem como levá-lo ao veterinário. – Afirmou o pai do André, calmamente.
– Sim paizinho, eu sei, mas mesmo assim gostava de ter um gato. Eu tratarei dele, fica descansado. – Disse o André.

Fez-se algum silêncio durante a refeição. Os pais do André trocavam alguns olhares, procurando chegar a um entendimento. O André mal conseguia tocar nas almôndegas com esparguete quando o pai voltou a falar.
– Muito bem, acho que se queres muito um gatinho tens que continuar a empenhar-te mais. Eu e a mãe, também tentaremos falar com a Sra. Regina e ver o que é possível fazer. – Disse o pai, enquanto piscava o olho à mulher, dando-lhe a ideia de que iriam fazer algo a respeito deste assunto.

O André não cabia de contente, não só os seus pais o tinham compreendido, como o iam ajudar.
– Mas não te podes esquecer, que o grande responsável pelo gatinho serás tu. – Disse a mãe do André. – Um gato é um animal que precisa de alguns cuidados, não é um brinquedo. – Continuou.
– Sim mamã, eu sei, fica descansada. – Respondeu o André.

No dia seguinte, lá foi o André até à AGPA. A maior parte das pessoas que trabalhavam ali já sabiam o que levava o André até lá.
– Bom dia André, se vieste falar com a Sra. Regina, ela não está. Teve que sair e não te sei dizer quando é que volta. – Disse o Sr. Rogério, contínuo do edifício.
– Oh, a sério?! – Exclamou o André desanimado.
– Acho que vai ficar para fora o dia inteiro. – Continuou o Sr. Rogério.
O André lá deu meia volta e foi-se embora um pouco triste.

À noite perguntou à mãe se ela tinha conseguido falar com a Sra. Regina, e após obter resposta negativa, perguntou se ela poderia escrever uma carta.
– Fica descansado sobre isso. Amanhã bem cedinho coloco a carta nos correios. – Disse a mãe afagando os cabelos do André.

Logo de manhã, o André levantou-se bem cedo, tomou o pequeno-almoço a correr e saiu repentinamente. Nem sequer conseguiu escutar a mãe que lhe perguntava o que ele desejava fazer para o seu aniversário. Faltavam menos de 3 dias e o André parecia esquecer-se disso.
Mais tarde, ao cair da noite, encontravam-se os três na sala de estar a fazer um jogo, quando o pai começou a falar.
– Olha, eu e a mãe tentámos falar com a Sra. Regina, mas parece que ela tem estado muito ocupada, e por isso, não conseguimos tratar do teu assunto. – Disse o pai, enquanto piscava o olho à mãe, como se estivesse a esconder um segredo.
– Eu sei, eu também tentei falar com ela mas ela não estava. – Disse o André um pouco triste, retirando os olhos do tabuleiro de jogo.
– Mas não te preocupes que a mamã já enviou a carta a explicar o que pretendes. – Disse a mãe, tentando alegrar o André.

Passaram-se mais 2 dias, até finalmente chegar o dia de anos do André. A manhã estava agradável e bonita.
Estava o André na casa de banho a lavar a cara e os dentes, esquecendo-se completamente que fazia anos naquele dia, quando de repente ouviu a campainha da porta. Pensou para consigo que talvez pudesse ser o carteiro e...era mesmo. Desceu as escadas da sua casa com muito cuidado e foi até à porta.
– É o correio. – Ouviu-se uma voz do lado de fora. Entretanto a mãe aproximou-se dele e abriram os dois a porta.
– Oh, Sr. Carlos, bom dia, o que o tráz por cá? – Perguntou o André.
– Bom dia André. Tenho aqui comigo uma encomenda para ti. – Respondeu o carteiro.
– Para mim? – Questionou o André olhando curioso tanto para a mãe como para o carteiro.
– Sim, para ti. Toma. – Disse o carteiro enquanto lhe estendia um enorme cesto de verga. – Tenho também aqui uma carta para ti. – Continuou o carteiro, que entretanto se despediu, pois tinha mais encomendas e cartas para entregar.

O André ficou junto à porta a olhar para o enorme cesto, quando de repente ouviu um suave “miau”.
– Ah...! – Exclamou o André entusiasmado enquanto abria o fecho do cesto. Ali dentro encontrava-se um belo gatinho cinzento e branco, com uns olhos azuis da cor do céu, era simplesmente lindo. O André pegou nele e olhou para a mãe com um ar enorme de felicidade.
– Queres ouvir o que a carta diz? – Perguntou a mãe num tom que mostrava já saber o que estava escrito na carta.
O André estava tão feliz que nem se lembrava da carta.
– Ah pois é, a carta. Sim, o que diz? – Questionou o André.
A mãe abriu então o envelope e leu a carta para o André...

“Caro André,

Em resposta à carta que os teus pais me escreveram em teu nome, dificilmente poderia negar-me a fazer-te este bonito favor. Sei que no dia 1 de Julho, fazes 8 anos de idade, e que gostarias muito de receber um gatinho. Sei que é teu maior desejo tornares-te responsável e tratar com muito carinho um dos nossos amiguinhos, como gosto de os chamar. Assim, tenho o maior prazer de satisfazer o teu desejo e presentear-te no teu aniversário, com o presente mais desejado.
Desejo-te muitas felicidades e que sejas um grande amigo para este gatinho.

P.S. só te peço um favor, tens que lhe dar um nome pois ele ainda não tem nenhum.

Assinado: Regina Paiva”

O André olhou para a mãe super emocionado e feliz. Lembrou-se que fazia anos e percebeu que os pais lhe tinham feito a maior surpresa que alguma vez pensara.
– Oh mãe, muito obrigado. Que nome lhe hei-de dar? – Disse o André.
– Hum, não sei bem, mas havemos de nos lembrar de algum que lhe fique bem. – Afirmou a mãe.
Foi um dia bem passado, entre mais presentes que os avós trouxeram e o bolo de anos delicioso, que a avó Maria fez. Divertiram-se imenso.
À noite, enquanto se preparava para aconchegar o seu mais novo amiguinho, o André lembrou-se que ainda não lhe tinha dado um nome.
– Hum, que nome é que te vou dar? – Perguntava-se. – Já sei! Vou te chamar “Riscas”, porque o teu pelo parece riscado. – Disse o André, rindo do que acabara de dizer. - É isso, vou te chamar “Riscas”.
O pequeno gatinho olhou para o André mas parecia nem ligar ao que se passava. Continuou a olhar um pouco até que se virou para o outro lado, já na sua nova caminha que os pais do André arranjaram para ele. O André recostou-se feliz na sua almofada, e adormeceu exausto de tanta emoção.

Ilustração: Susana Tavares
Texto: Sandra Simões