segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

O Grande Presente

Faltava menos de uma semana para o André fazer 8 anos de idade, mas ele nem parecia se lembrar disso, pois andava muito atarefado em falar com a Associação de Gatos Perdidos e Abandonados, a AgpA.
Dirigindo-se até à cozinha onde se encontrava a mãe...

– Mamã, gostaria que me ajudasses numa coisa.

A mãe olhou para o André e percebeu que algo o incomodava.

– Sim filho, diz – respondeu a mãe.
– Gostaria que me ajudasses a escrever uma carta para a AGPA. É que eu já tentei falar com a Sra. Regina, mas parece que tem sempre o que fazer, nunca tem tempo para falar comigo – explicou o André à mãe.
– Um gato?! – Disse a mãe apanhada de surpresa. – E já foste à Associação? – Continuou a mãe.
– Porque é que queres um gato? – Perguntou a mãe.
– Gostava de ter um gatinho aqui em casa. – Disse o André. – Podes falar com a Sra. Regina, ou escrever-lhe? – Perguntou o André com os olhos bem abertos.
– Acho que primeiro teremos que falar com o pai, não te parece? – Questionou a mãe.

Quando o pai chegou, já o André se encontrava às voltas na sala de estar, super impaciente.
– Olá pessoal, cheguei! – Disse o pai, enquanto pendurava o seu chapéu.
– Olá lindo. – Disse a mãe, saindo da cozinha.
– Olá paizinho. – Disse o André.
– Temos uma coisa para falar contigo. – Disse a mãe.
– Sim paizinho, e é muito importante. – Disse o André.

O pai ficou surpreso e ao mesmo tempo curioso por ver aqueles olhos castanhos do André bem arregalados. Dirigiram-se os três até à cozinha e enquanto se sentavam para dar início à refeição do jantar, o André começou a falar.
– Paizinho, gostaria muito de ter um gatinho aqui connosco. – Disse o André. – Tentei falar com a Sra. Regina, responsável pela Associação dos gatos, mas ela tinha sempre muito trabalho e nunca pude falar com ela. – Continuou o André.
– Bem, já vi que tens tudo planeado. – Disse o pai do André, espantado.
– Sim, acho que sim. – Respondeu o André com um belo sorriso.
– E sabes o que representa ter um gatinho aqui em casa? – Perguntou o pai.
– Sim eu sei que é necessário tratar do gatinho. Ele vai precisar muito de mim. – Respondeu o André.
– Sim, tens que estar atento à hora em que ele come, limpar o cesto onde fará as suas necessidades, bem como levá-lo ao veterinário. – Afirmou o pai do André, calmamente.
– Sim paizinho, eu sei, mas mesmo assim gostava de ter um gato. Eu tratarei dele, fica descansado. – Disse o André.

Fez-se algum silêncio durante a refeição. Os pais do André trocavam alguns olhares, procurando chegar a um entendimento. O André mal conseguia tocar nas almôndegas com esparguete quando o pai voltou a falar.
– Muito bem, acho que se queres muito um gatinho tens que continuar a empenhar-te mais. Eu e a mãe, também tentaremos falar com a Sra. Regina e ver o que é possível fazer. – Disse o pai, enquanto piscava o olho à mulher, dando-lhe a ideia de que iriam fazer algo a respeito deste assunto.

O André não cabia de contente, não só os seus pais o tinham compreendido, como o iam ajudar.
– Mas não te podes esquecer, que o grande responsável pelo gatinho serás tu. – Disse a mãe do André. – Um gato é um animal que precisa de alguns cuidados, não é um brinquedo. – Continuou.
– Sim mamã, eu sei, fica descansada. – Respondeu o André.

No dia seguinte, lá foi o André até à AGPA. A maior parte das pessoas que trabalhavam ali já sabiam o que levava o André até lá.
– Bom dia André, se vieste falar com a Sra. Regina, ela não está. Teve que sair e não te sei dizer quando é que volta. – Disse o Sr. Rogério, contínuo do edifício.
– Oh, a sério?! – Exclamou o André desanimado.
– Acho que vai ficar para fora o dia inteiro. – Continuou o Sr. Rogério.
O André lá deu meia volta e foi-se embora um pouco triste.

À noite perguntou à mãe se ela tinha conseguido falar com a Sra. Regina, e após obter resposta negativa, perguntou se ela poderia escrever uma carta.
– Fica descansado sobre isso. Amanhã bem cedinho coloco a carta nos correios. – Disse a mãe afagando os cabelos do André.

Logo de manhã, o André levantou-se bem cedo, tomou o pequeno-almoço a correr e saiu repentinamente. Nem sequer conseguiu escutar a mãe que lhe perguntava o que ele desejava fazer para o seu aniversário. Faltavam menos de 3 dias e o André parecia esquecer-se disso.
Mais tarde, ao cair da noite, encontravam-se os três na sala de estar a fazer um jogo, quando o pai começou a falar.
– Olha, eu e a mãe tentámos falar com a Sra. Regina, mas parece que ela tem estado muito ocupada, e por isso, não conseguimos tratar do teu assunto. – Disse o pai, enquanto piscava o olho à mãe, como se estivesse a esconder um segredo.
– Eu sei, eu também tentei falar com ela mas ela não estava. – Disse o André um pouco triste, retirando os olhos do tabuleiro de jogo.
– Mas não te preocupes que a mamã já enviou a carta a explicar o que pretendes. – Disse a mãe, tentando alegrar o André.

Passaram-se mais 2 dias, até finalmente chegar o dia de anos do André. A manhã estava agradável e bonita.
Estava o André na casa de banho a lavar a cara e os dentes, esquecendo-se completamente que fazia anos naquele dia, quando de repente ouviu a campainha da porta. Pensou para consigo que talvez pudesse ser o carteiro e...era mesmo. Desceu as escadas da sua casa com muito cuidado e foi até à porta.
– É o correio. – Ouviu-se uma voz do lado de fora. Entretanto a mãe aproximou-se dele e abriram os dois a porta.
– Oh, Sr. Carlos, bom dia, o que o tráz por cá? – Perguntou o André.
– Bom dia André. Tenho aqui comigo uma encomenda para ti. – Respondeu o carteiro.
– Para mim? – Questionou o André olhando curioso tanto para a mãe como para o carteiro.
– Sim, para ti. Toma. – Disse o carteiro enquanto lhe estendia um enorme cesto de verga. – Tenho também aqui uma carta para ti. – Continuou o carteiro, que entretanto se despediu, pois tinha mais encomendas e cartas para entregar.

O André ficou junto à porta a olhar para o enorme cesto, quando de repente ouviu um suave “miau”.
– Ah...! – Exclamou o André entusiasmado enquanto abria o fecho do cesto. Ali dentro encontrava-se um belo gatinho cinzento e branco, com uns olhos azuis da cor do céu, era simplesmente lindo. O André pegou nele e olhou para a mãe com um ar enorme de felicidade.
– Queres ouvir o que a carta diz? – Perguntou a mãe num tom que mostrava já saber o que estava escrito na carta.
O André estava tão feliz que nem se lembrava da carta.
– Ah pois é, a carta. Sim, o que diz? – Questionou o André.
A mãe abriu então o envelope e leu a carta para o André...

“Caro André,

Em resposta à carta que os teus pais me escreveram em teu nome, dificilmente poderia negar-me a fazer-te este bonito favor. Sei que no dia 1 de Julho, fazes 8 anos de idade, e que gostarias muito de receber um gatinho. Sei que é teu maior desejo tornares-te responsável e tratar com muito carinho um dos nossos amiguinhos, como gosto de os chamar. Assim, tenho o maior prazer de satisfazer o teu desejo e presentear-te no teu aniversário, com o presente mais desejado.
Desejo-te muitas felicidades e que sejas um grande amigo para este gatinho.

P.S. só te peço um favor, tens que lhe dar um nome pois ele ainda não tem nenhum.

Assinado: Regina Paiva”

O André olhou para a mãe super emocionado e feliz. Lembrou-se que fazia anos e percebeu que os pais lhe tinham feito a maior surpresa que alguma vez pensara.
– Oh mãe, muito obrigado. Que nome lhe hei-de dar? – Disse o André.
– Hum, não sei bem, mas havemos de nos lembrar de algum que lhe fique bem. – Afirmou a mãe.
Foi um dia bem passado, entre mais presentes que os avós trouxeram e o bolo de anos delicioso, que a avó Maria fez. Divertiram-se imenso.
À noite, enquanto se preparava para aconchegar o seu mais novo amiguinho, o André lembrou-se que ainda não lhe tinha dado um nome.
– Hum, que nome é que te vou dar? – Perguntava-se. – Já sei! Vou te chamar “Riscas”, porque o teu pelo parece riscado. – Disse o André, rindo do que acabara de dizer. - É isso, vou te chamar “Riscas”.
O pequeno gatinho olhou para o André mas parecia nem ligar ao que se passava. Continuou a olhar um pouco até que se virou para o outro lado, já na sua nova caminha que os pais do André arranjaram para ele. O André recostou-se feliz na sua almofada, e adormeceu exausto de tanta emoção.

Ilustração: Susana Tavares
Texto: Sandra Simões

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

O Aniversário da Bruxinha Raquel

Era uma vez…
Uma pequena bruxinha chamada Raquel.
A bruxinha Raquel faz anos hoje, por isso está muito contente. E um aniversário sem bolo, não tem piada, não parece verdadeiro.

A bruxinha Raquel fechou os olhos, respirou fundo e...começou a dizer umas palavras esquisitas, parecia magia.
– Opus, pokos, kopus. – Disse a bruxinha Raquel.
Abriu um olho e...nada.
– Oh, eu queria tanto um bolo. Tenho que voltar às aulas mágicas da Maga Felisbela e aprender a magia do bolo que aparece. – Disse para si. – Bem, o melhor é ir comprar um bolo à loja do feiticeiro Zamito.

E lá foi na sua vassoura voadora super entusiasmada com o seu aniversário.
Chegou à loja do feiticeiro e pediu-lhe um bolo de anos. O feiticeiro Zamito tinha acabado de fazer uma fornada de bolos de aniversário, com a ajuda da sua varinha mágica e das suas ajudantes, a Claudete Nariguda e a Xica Cabeluda.
– Aqui tens, minha menina. – Disse o feiticeiro Zamito, estendendo-lhe o bolo numa grande caixa muito colorida.
– A Claudete Nariguda e a Xica Cabeluda acabaram mesmo agora de o embrulhar. – Disse novamente o feiticeiro Zamito.
– Oh, muito obrigado. O meu gato Miló vai adorar.

A bruxinha Raquel pegou na sua vassoura voadora e lá foi para casa. Estava tão contente. Enquanto voava, pensava na surpresa que o seu gato Miló ia ter ao ver um bolo tão grande e tão bonito, para os dois celebrarem o seu aniversário.
Chegou a casa e pôs-se à procura do seu gato.
– Miló, Miló, onde é que estás? – Chamava a bruxinha.
– Olha o que eu trouxe. – Disse.
– Tenho aqui um bolo delicioso para nós. – Continuou a bruxinha.
– Miló, onde é que te escondeste, não te esqueceste dos meus anos pois não? – Perguntou a bruxinha já preocupada.

A bruxinha Raquel procurou, procurou e voltou a procurar, pela casa toda.
– Debaixo da mesa não está. Dentro do forno, também não. Dentro das panelas do armário, também não. – Pensava a bruxinha Raquel para si mesma.
Parou de procurar o gato Miló e começou a pensar o que poderia ter acontecido. – Se calhar seguiu-me quando fui à loja do feiticeiro Zamito. – Disse em voz alta.

Mais alegre e esperançosa, a bruxinha Raquel, pegou novamente na sua vassoura voadora e voou até à Vila Morcego.
Como já era um pouco tarde, a loja do feiticeiro Zamito já estava fechada, mas como se podia ver luz lá dentro, a bruxinha Raquel desceu da vassoura e bateu à porta.
– Truz, truz, truz. Feiticeiro Zamito, sou eu a bruxinha Raquel. Estou à procura do meu gatinho Miló e gostaria de saber se ele está aí. – Disse a pequena bruxinha.

Do outro lado, ouviu-se a Xica Cabeluda.
– Oh minha querida, aqui ele não está. – Disse a ajudante do feiticeiro.
– Oh, a sério! – Exclamou a bruxinha, desanimada.
– É melhor procurares noutro local. Estamos muito ocupados e não te podemos ajudar. – Disse a Xica Cabeluda de dentro da loja.

A pequena bruxinha tentou lembrar-se dos sítios preferidos do gato Miló, talvez se tivesse perdido numa loja de bombons ou numa retrosaria, ou até na loja de sapatos.
– Hum, por onde começo. – Disse a bruxinha Raquel.
Lembrou-se da retrosaria Abóbora e voou até lá.
– Truz, truz, truz. – Bateu à porta.
– Maga Abóbora, daqui é a bruxinha Raquel. Eu estou à procura do meu gato Miló, ele está aí? – Perguntava a bruxinha, sem obter resposta. – Eu faço anos hoje e temos uma festa para celebrar os dois. – Disse a bruxinha esperando resposta.
A Maga Abóbora levou algum tempo a responder.
– Olá bruxinha Raquel. Não, não sei do teu gatinho e como tenho muito que fazer, não te posso ajudar. – Respondeu a Maga Abóbora.

A pequena bruxinha começava a desanimar, pois não conseguia encontrar o seu gato. Fez mais um esforço para se lembrar de outro sítio onde ele pudesse estar.
– Hum, será que ele foi até à casa da bruxa Enrugada? – Perguntou para si mesma.

Pegou na vassoura voadora e lá voou até à casa da bruxa Enrugada.
– Truz, truz, truz. – Bateu à porta.
– Quem é? – Perguntou uma voz esganiçada do outro lado.
– Sou eu, a bruxinha Raquel. Queria saber se o meu gato Miló está aí. – Respondeu a bruxinha. – É que eu faço hoje anos e temos uma festa para celebrar. – Explicou a bruxinha.
– Não, não sei nada do teu gato. Há muito tempo que ele não me visita. Mas olha, eu agora estou muito ocupada com umas receitas mágicas, por isso não te posso ajudar. – Disse a bruxa Enrugada.

A bruxinha Raquel estava muito triste. Sentou-se perto duns arbustos enquanto pensava no seu gato Miló. – Onde é que tu estás Miló? – Perguntava-se.
– Assim não tem piada fazer anos. – Disse a bruxinha.

Pegou na sua vassoura voadora e voltou para casa sozinha e sem gato. Talvez ele já esteja em casa à minha espera, pensava a bruxinha Raquel. Talvez...
Em casa da pequena bruxinha tudo parecia na mesma. Tudo parecia estar como antes, mas se calhar, talvez não!

– SURPRESA! – Gritaram o feiticeiro Zamito, a Xica Cabeluda, a Claudete Nariguda, a Maga Abóbora e a bruxa Enrugada.
– É uma surpresa. Feliz aniversário! – Continuavam eles super alegres.

A bruxinha Raquel, que não esperava nada daquilo, ficou contente com a surpresa. Todos tinham vindo, todos traziam presentes.
– Oh, que surpresa boa. – Disse a pequena bruxinha.
A bruxinha recebeu, uma varinha mágica nova, uma bola de cristal e até uma capa mágica cosida pela Xica Cabeluda e pela Claudete Nariguda. Só faltava mesmo, era o seu gato.
– Faz um pedido. – Disse o feiticeiro Zamito.
A pequena bruxinha agitou a sua nova varinha mágica, arregalou bem os olhos em direcção à bola de cristal e fez uma magia.
– Opuspokoskospus Vrum vá vrii, desejo o meu gato Miló aqui! – Exclamou a bruxinha.

Num abrir e fechar de olhos, o gato Miló estava na sala dando um salto para o colo da pequena bruxinha. Foi um serão muito divertido, entre sumo de girassol, bolo doce de rã e muitas anedotas e partidas. A bruxinha Raquel estava muito feliz com a sua festa de anos, principalmente porque tinha consigo o seu querido gato Miló.


imagem de Susana Tavares

Autoria: Sandra Simões

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

A menina do 3º andar

Era costume àquela hora da tarde, a Ritinha colar o seu pequeno e arrebitado narizinho junto à janela para ver um grupo de meninas brincar e jogar, no pátio em frente ao seu prédio.

– Paizinho, posso ir até lá a baixo? – Perguntou Ritinha um pouco a medo, receando a resposta.
– Lá abaixo? Para quê? – Questionou seu pai, enquanto lia o jornal.
– É que eu gostava de poder brincar com as meninas, que estão lá em baixo – disse em voz mais firme.
– Minha querida, tens as bonecas que eu te dei, os ursinhos de peluche, enfim, tens montes de brinquedos com os quais podes brincar e te divertir – disse o pai, sem levantar os olhos do jornal.
– Mas...mas...mas – gaguejava Ritinha sem perceber porque é que não podia ir lá para fora.
– Minha princesa, tu não conheces essas meninas, elas de certeza não moram neste prédio, e eu não quero que tu te percas. Agora deixa o paizinho ler o jornal, porque só tenho este tempinho para o fazer.
Ritinha dirigiu-se até à janela do seu quarto, inconsolável. As lágrimas, caíam do seu rosto enquanto via aquele grupo de meninas lá em baixo.


Nesse pátio, que ficava em frente ao prédio da Ritinha, encontravam-se quatro meninas a brincar à cabra cega, à apanhada, às escondidas, brincadeiras que faziam a sua alegria.
– Susana, já reparaste que ali em cima, naquela janela do 3º andar, está sempre uma menina a olhar para nós?! – perguntou Carolina
–Já! Quase todos os dias à mesma hora, ela está ali, não sei porque não desce?! – perguntou Filipa.
– Se calhar não pode brincar connosco! – exclamou Andreia.
– Porquê? – perguntaram as outras três.
– Vocês já reparam no tipo de prédio onde vive?, deve ser filha de pais ricos – continuou.
– E o que é que isso tem a ver? – perguntou Filipa.
– Tem a ver que, não é costume juntarem-se com meninas mais pobres, como nós!
Tanto Susana, como Carolina bem como Filipa viviam num bairro mais pobre, mas gostavam muito de brincar naquele pátio pois este tinha baloiços, escorrega e muito espaço para se brincar.


– Que estranho, há quatro dias que não vejo aquela menina do 3º andar! – exclamou Susana.
– Pois é, ontem já tinha reparado o mesmo! – disse Carolina para o grupo. – Se calhar foi de férias! – comentou Filipa.
– Não me parece, ainda estamos em tempo de aulas e, julgo que essa menina ande naquele colégio perto da Biblioteca Principal – retorquiu Andreia.
– Se calhar tens razão!, sabem?, já me habituei a vê-la ali colada à janela, dá vontade de gritar e saber se ela gostaria de brincar connosco! – disse Carolina.
– Tive uma ideia! – exclamou Andreia, deixando as outras curiosas.
– O que é? – perguntaram.
– Que tal se fossemos até ao prédio e pedíssemos para subir até à casa da menina do 3º andar?! – continuou entusiasmada.
– Achas que nos deixam entrar? – perguntou Susana.
– Só há uma maneira de saber! – respondeu Andreia.
Então lá foram as quatro. Atravessaram o pátio, passaram a estrada principal e dirigiram-se até ao porteiro, que se encontrava à porta do prédio.
– Boa tarde, eu gostaria de saber se seria possível irmos visitar a menina do 3º andar?! – perguntou Andreia, muito confiante.
– E quem devo anunciar? – ripostou o porteiro.
– Diga-lhe que estão aqui as meninas que costumam brincar no pátio, ali em frente – disse, apontando na direcção do pátio.
O porteiro pegou no telefone do prédio e ligou o número.
– Muito boa tarde senhora Teresa, estou a ligar porque tenho aqui quatro meninas que desejam visitar a menina Ritinha. O que faço? – disse o porteiro.
Do outro lado fez-se silêncio.


Realmente, Ritinha não aparecia há já algum tempo. Os seus pais andavam preocupados, não compreendiam o que ela tinha, o pai quase todos os dias trazia para casa um brinquedo novo e bombons, mas isso não a alegrava. A mãe, pedia à cozinheira para fazer os seus pratos favoritos, mas Ritinha não saía da a cama com febre.


– Quatro meninas? – perguntou a mãe da Ritinha através do intercomunicador. – Um momento, está bem? – perguntou antes de desligar.
– Ritinha, posso entrar? – perguntou junto à porta do seu quarto.
– Sim mãezinha. – respondeu Ritinha com uma voz muito frágil e cansada.
– Estão lá em baixo, quatro meninas que te querem ver! – disse a mãe.
– Quem são? – perguntou Ritinha.
– Acho que são aquelas meninas que tu costumas observar da tua janela – continuou a mãe.
– Querem me ver? – perguntou Ritinha, já sentada na cama.
– Eu vou dizer ao porteiro para as deixar subir – disse a mãe, verificando o brilho alegre dos olhos de Ritinha.


O porteiro fez-lhes sinal para subirem e, lá foram elas dirigindo-se para o elevador.
– O que lhe vamos dizer? – perguntou Carolina.
– Não sei. Depois logo se vê. O que interessa é que nos quer ver! – exclamou Andreia.

Chegaram então ao 3º andar. Tocaram à campainha e esperaram. Entretanto abriu-se a porta.

– Boa tarde. Eu sou a mãe da Ritinha, a menina que vocês querem ver! – disse a mãe enquanto abria a porta e lhes dava sinal para entrarem.
– Eu sou a Andreia, ela é a Susana, a Carolina e a Filipa. Viemos saber o que aconteceu com a Ritinha, é esse o seu nome?, é que costumamos brincar lá em baixo no pátio em frente e, vemo-la sempre à janela, mas esta semana achámos estranho... – explicou Andreia a razão da visita.
– A Ritinha ficou doente, tem tido muita febre, eu e o pai chamámos o médico cá a casa, ele diz que fisicamente a Ritinha está bem. Que se passou qualquer coisa para ela ficar assim, mas que também não sabe o quê! – disse a mãe de Ritinha.
– Mas venham, entrem, ela está à vossa espera – disse.

As quatro meninas seguiram a mãe de Ritinha, até ao quarto dela. Dando indicação que podiam entrar, deixou-as.

– Podemos entrar? – perguntou Andreia.
– Sim! – respondeu Ritinha lá de dentro.
– Vocês quiseram conhecer-me?, porquê? – questionou.
–Olá, o meu nome é Andreia, ela chama-se Susana, aquela é a Filipa e aquela é a Carolina – disse apontando em direcção a cada uma delas.
– Olá!! – disseram todas ao mesmo tempo.
– Sim queríamos conhecer-te. Ficámos curiosas pois nunca mais te vimos à janela – respondeu Susana.
– Não sei bem. Um dia acordei sem forças, sem me apetecer sair da cama, sem querer saber dos brinquedos, nem mesmo ir até à janela, ando triste. – explicou Ritinha.
Andreia interrompeu-a dizendo:
– Se calhar é porque passas muito tempo sozinha. – afirmou
– Não sei. Realmente o que eu mais queria, era sair daqui e brincar com vocês – afirmou Ritinha.
– E porque não o fizeste?, recebíamos-te de braços abertos! – disse Filipa.
– O meu pai acha que me posso perder e afastar e, como não vos conhece tem medo. – explicou.

Estiveram algum tempo a conversar, a conhecer-se. Aproveitaram para contar aquilo que mais gostavam, do que mais sentiam medo, do que as fascinava, do tipo de brincadeiras que gostavam de brincar e, muito mais. Sem se aperceberem as horas passaram.
Parecia que já se conheciam há anos.


– Querem lanchar aqui comigo?, de repente deu-me uma fome! – disse Ritinha sentindo-se muito melhor.
– Não sei. Se calhar os teus pais podem não gostar da ideia de... – mas antes que Susana terminasse a frase, os pais de Ritinha entraram no quarto.
– Desculpem entrarmos assim, mas ouvimos essa última frase e...achamos uma óptima ideia – disse o pai de Ritinha.
– Enquanto estiveram aqui no quarto, eu e a minha mulher pedimos para preparar um lanchezinho para vocês. Querem vir para a sala? – perguntou o pai.
– Bem!... – hesitaram todas, então a Ritinha disse:
– Sim, achamos uma boa ideia. Temos que celebrar a nossa nova amizade e também, porque já me sinto bem melhor! – exclamou alegre.


Foram todos para a sala e ali ficaram. A mesa estava cheia, tinha bolo de chocolate, pequenas sanduíches de fiambre, sumos, pratinhos com pequenos docinhos e rebuçados.
Já estava a ficar quase escuro quando as quatro meninas se foram embora. Não queriam preocupar os seus pais, despediram-se, prometendo voltar a encontrar-se em breve.
À noite, o pai da Ritinha foi até ao seu quarto.
– Posso entrar querida? – perguntou junto à porta.
– Sim papá! – respondeu Ritinha.
– Sabes, quero dizer-te que fui um pouco egoísta, que não percebi o quanto precisas de ter amigas, achei que os brinquedos era suficiente, mas esqueci-me que é muito importante o carinho e a amizade entre amigos. Peço desculpa! – falou envergonhado.
– Oh papá, eu sei que não fizeste por mal. Eu também não sabia disso até tê-las conhecido! – disse Ritinha esticando-se para lhe dar um abraço.
– Paizinho, amanhã depois da escola posso ir brincar para o pátio? – perguntou Ritinha.
– Hum...não sei! – disse o pai em tom brincalhão.
– Mas... – começou Ritinha sem se aperceber da expressão no rosto do seu pai.
– Podes, tens que crescer e fazer amigos, aprender coisas novas e ser uma boa amiga também! – disse por fim.

Ritinha não cabia em si de contente.


Depois da escola, Ritinha dirigiu-se até ao pátio de encontro às suas novas amigas.

– Posso brincar? – perguntou um pouco envergonhada.
– Ritinha! – exclamaram surpresas.
– Claro. Estamos a combinar brincar às escondidas, sabes como é? – perguntou Andreia.
–Sim! Enquanto vocês brincavam eu observava cada gesto que faziam, lá de cima da minha janela. – respondeu Ritinha.
–Pois é, que estranho, já estávamos habituadas a ver-te à janela – disse Filipa.
– O que interessa é que fizemos uma nova amiga – exclamaram ao mesmo tempo.
– Ritinha, és muito bem vinda às nossas brincadeiras, vamos começar o jogo? – perguntou Andreia.


Daí em diante, quase todos os dias, as cinco meninas encontravam-se no pátio para brincar, jogar ou apenas para conversar. Nunca mais se separaram e ficaram grandes amigas.
imagem de Suana Tavares
Autoria: Sandra Simões

O Sr. Inverno e a Dama Primavera

O Sr. Inverno é muito sozinho,
Quem se aproxima dele fica em friso,
Quando fica triste chove, quando se irrita troveja,
Poucas gentes o toleram onde quer que ele esteja.

Um belo dia de sua casa saiu e fez caminho,
Ao sentar-se num banco de jardim ali ficou sossegadinho,
Uma bela dama dele se aproximou, sentou-se ao seu lado e ali ficou,
Começaram a conversar e a bela dama desatou a espirrar.

Meu nome é Primavera, atchim, atchim, dizia ela,
Muito prazer linda dama, sois muito bela,
Tímida ficou, esboçando um sorriso, mas depressa gelou,
O Sr. Inverno triste ficou, levantou-se, disse adeus e chorou.

Certa manhã, no meio do seu jardim, flores apareceram,
Pássaros bailavam e suaves melodias cantavam,
A dama surgiu vestida de branco, bela e imponente,
Disse-lhe que queria ficar perto, e trazia-lhe um presente.

Estendeu a mão e deu-lhe uma caixa de chocolates,
Sempre que ficares triste come um, e não mais acontecem disparates,
O Sr. Inverno adorou, pegou na mão dela e a acariciou,
Era impossível esconder, apaixonado por ela ficou.

Dançaram pela tarde dentro, brindaram aos seus corações,
Aconchegados pela noite, explodiram em emoções,
Juntos conseguiram, superar as diferenças que cometeram,
Apaixonaram-se e felizes permaneceram.

foto de autoria de Ana Estrela

Autoria: Sandra Simões