segunda-feira, 10 de setembro de 2007

A menina do 3º andar

Era costume àquela hora da tarde, a Ritinha colar o seu pequeno e arrebitado narizinho junto à janela para ver um grupo de meninas brincar e jogar, no pátio em frente ao seu prédio.

– Paizinho, posso ir até lá a baixo? – Perguntou Ritinha um pouco a medo, receando a resposta.
– Lá abaixo? Para quê? – Questionou seu pai, enquanto lia o jornal.
– É que eu gostava de poder brincar com as meninas, que estão lá em baixo – disse em voz mais firme.
– Minha querida, tens as bonecas que eu te dei, os ursinhos de peluche, enfim, tens montes de brinquedos com os quais podes brincar e te divertir – disse o pai, sem levantar os olhos do jornal.
– Mas...mas...mas – gaguejava Ritinha sem perceber porque é que não podia ir lá para fora.
– Minha princesa, tu não conheces essas meninas, elas de certeza não moram neste prédio, e eu não quero que tu te percas. Agora deixa o paizinho ler o jornal, porque só tenho este tempinho para o fazer.
Ritinha dirigiu-se até à janela do seu quarto, inconsolável. As lágrimas, caíam do seu rosto enquanto via aquele grupo de meninas lá em baixo.


Nesse pátio, que ficava em frente ao prédio da Ritinha, encontravam-se quatro meninas a brincar à cabra cega, à apanhada, às escondidas, brincadeiras que faziam a sua alegria.
– Susana, já reparaste que ali em cima, naquela janela do 3º andar, está sempre uma menina a olhar para nós?! – perguntou Carolina
–Já! Quase todos os dias à mesma hora, ela está ali, não sei porque não desce?! – perguntou Filipa.
– Se calhar não pode brincar connosco! – exclamou Andreia.
– Porquê? – perguntaram as outras três.
– Vocês já reparam no tipo de prédio onde vive?, deve ser filha de pais ricos – continuou.
– E o que é que isso tem a ver? – perguntou Filipa.
– Tem a ver que, não é costume juntarem-se com meninas mais pobres, como nós!
Tanto Susana, como Carolina bem como Filipa viviam num bairro mais pobre, mas gostavam muito de brincar naquele pátio pois este tinha baloiços, escorrega e muito espaço para se brincar.


– Que estranho, há quatro dias que não vejo aquela menina do 3º andar! – exclamou Susana.
– Pois é, ontem já tinha reparado o mesmo! – disse Carolina para o grupo. – Se calhar foi de férias! – comentou Filipa.
– Não me parece, ainda estamos em tempo de aulas e, julgo que essa menina ande naquele colégio perto da Biblioteca Principal – retorquiu Andreia.
– Se calhar tens razão!, sabem?, já me habituei a vê-la ali colada à janela, dá vontade de gritar e saber se ela gostaria de brincar connosco! – disse Carolina.
– Tive uma ideia! – exclamou Andreia, deixando as outras curiosas.
– O que é? – perguntaram.
– Que tal se fossemos até ao prédio e pedíssemos para subir até à casa da menina do 3º andar?! – continuou entusiasmada.
– Achas que nos deixam entrar? – perguntou Susana.
– Só há uma maneira de saber! – respondeu Andreia.
Então lá foram as quatro. Atravessaram o pátio, passaram a estrada principal e dirigiram-se até ao porteiro, que se encontrava à porta do prédio.
– Boa tarde, eu gostaria de saber se seria possível irmos visitar a menina do 3º andar?! – perguntou Andreia, muito confiante.
– E quem devo anunciar? – ripostou o porteiro.
– Diga-lhe que estão aqui as meninas que costumam brincar no pátio, ali em frente – disse, apontando na direcção do pátio.
O porteiro pegou no telefone do prédio e ligou o número.
– Muito boa tarde senhora Teresa, estou a ligar porque tenho aqui quatro meninas que desejam visitar a menina Ritinha. O que faço? – disse o porteiro.
Do outro lado fez-se silêncio.


Realmente, Ritinha não aparecia há já algum tempo. Os seus pais andavam preocupados, não compreendiam o que ela tinha, o pai quase todos os dias trazia para casa um brinquedo novo e bombons, mas isso não a alegrava. A mãe, pedia à cozinheira para fazer os seus pratos favoritos, mas Ritinha não saía da a cama com febre.


– Quatro meninas? – perguntou a mãe da Ritinha através do intercomunicador. – Um momento, está bem? – perguntou antes de desligar.
– Ritinha, posso entrar? – perguntou junto à porta do seu quarto.
– Sim mãezinha. – respondeu Ritinha com uma voz muito frágil e cansada.
– Estão lá em baixo, quatro meninas que te querem ver! – disse a mãe.
– Quem são? – perguntou Ritinha.
– Acho que são aquelas meninas que tu costumas observar da tua janela – continuou a mãe.
– Querem me ver? – perguntou Ritinha, já sentada na cama.
– Eu vou dizer ao porteiro para as deixar subir – disse a mãe, verificando o brilho alegre dos olhos de Ritinha.


O porteiro fez-lhes sinal para subirem e, lá foram elas dirigindo-se para o elevador.
– O que lhe vamos dizer? – perguntou Carolina.
– Não sei. Depois logo se vê. O que interessa é que nos quer ver! – exclamou Andreia.

Chegaram então ao 3º andar. Tocaram à campainha e esperaram. Entretanto abriu-se a porta.

– Boa tarde. Eu sou a mãe da Ritinha, a menina que vocês querem ver! – disse a mãe enquanto abria a porta e lhes dava sinal para entrarem.
– Eu sou a Andreia, ela é a Susana, a Carolina e a Filipa. Viemos saber o que aconteceu com a Ritinha, é esse o seu nome?, é que costumamos brincar lá em baixo no pátio em frente e, vemo-la sempre à janela, mas esta semana achámos estranho... – explicou Andreia a razão da visita.
– A Ritinha ficou doente, tem tido muita febre, eu e o pai chamámos o médico cá a casa, ele diz que fisicamente a Ritinha está bem. Que se passou qualquer coisa para ela ficar assim, mas que também não sabe o quê! – disse a mãe de Ritinha.
– Mas venham, entrem, ela está à vossa espera – disse.

As quatro meninas seguiram a mãe de Ritinha, até ao quarto dela. Dando indicação que podiam entrar, deixou-as.

– Podemos entrar? – perguntou Andreia.
– Sim! – respondeu Ritinha lá de dentro.
– Vocês quiseram conhecer-me?, porquê? – questionou.
–Olá, o meu nome é Andreia, ela chama-se Susana, aquela é a Filipa e aquela é a Carolina – disse apontando em direcção a cada uma delas.
– Olá!! – disseram todas ao mesmo tempo.
– Sim queríamos conhecer-te. Ficámos curiosas pois nunca mais te vimos à janela – respondeu Susana.
– Não sei bem. Um dia acordei sem forças, sem me apetecer sair da cama, sem querer saber dos brinquedos, nem mesmo ir até à janela, ando triste. – explicou Ritinha.
Andreia interrompeu-a dizendo:
– Se calhar é porque passas muito tempo sozinha. – afirmou
– Não sei. Realmente o que eu mais queria, era sair daqui e brincar com vocês – afirmou Ritinha.
– E porque não o fizeste?, recebíamos-te de braços abertos! – disse Filipa.
– O meu pai acha que me posso perder e afastar e, como não vos conhece tem medo. – explicou.

Estiveram algum tempo a conversar, a conhecer-se. Aproveitaram para contar aquilo que mais gostavam, do que mais sentiam medo, do que as fascinava, do tipo de brincadeiras que gostavam de brincar e, muito mais. Sem se aperceberem as horas passaram.
Parecia que já se conheciam há anos.


– Querem lanchar aqui comigo?, de repente deu-me uma fome! – disse Ritinha sentindo-se muito melhor.
– Não sei. Se calhar os teus pais podem não gostar da ideia de... – mas antes que Susana terminasse a frase, os pais de Ritinha entraram no quarto.
– Desculpem entrarmos assim, mas ouvimos essa última frase e...achamos uma óptima ideia – disse o pai de Ritinha.
– Enquanto estiveram aqui no quarto, eu e a minha mulher pedimos para preparar um lanchezinho para vocês. Querem vir para a sala? – perguntou o pai.
– Bem!... – hesitaram todas, então a Ritinha disse:
– Sim, achamos uma boa ideia. Temos que celebrar a nossa nova amizade e também, porque já me sinto bem melhor! – exclamou alegre.


Foram todos para a sala e ali ficaram. A mesa estava cheia, tinha bolo de chocolate, pequenas sanduíches de fiambre, sumos, pratinhos com pequenos docinhos e rebuçados.
Já estava a ficar quase escuro quando as quatro meninas se foram embora. Não queriam preocupar os seus pais, despediram-se, prometendo voltar a encontrar-se em breve.
À noite, o pai da Ritinha foi até ao seu quarto.
– Posso entrar querida? – perguntou junto à porta.
– Sim papá! – respondeu Ritinha.
– Sabes, quero dizer-te que fui um pouco egoísta, que não percebi o quanto precisas de ter amigas, achei que os brinquedos era suficiente, mas esqueci-me que é muito importante o carinho e a amizade entre amigos. Peço desculpa! – falou envergonhado.
– Oh papá, eu sei que não fizeste por mal. Eu também não sabia disso até tê-las conhecido! – disse Ritinha esticando-se para lhe dar um abraço.
– Paizinho, amanhã depois da escola posso ir brincar para o pátio? – perguntou Ritinha.
– Hum...não sei! – disse o pai em tom brincalhão.
– Mas... – começou Ritinha sem se aperceber da expressão no rosto do seu pai.
– Podes, tens que crescer e fazer amigos, aprender coisas novas e ser uma boa amiga também! – disse por fim.

Ritinha não cabia em si de contente.


Depois da escola, Ritinha dirigiu-se até ao pátio de encontro às suas novas amigas.

– Posso brincar? – perguntou um pouco envergonhada.
– Ritinha! – exclamaram surpresas.
– Claro. Estamos a combinar brincar às escondidas, sabes como é? – perguntou Andreia.
–Sim! Enquanto vocês brincavam eu observava cada gesto que faziam, lá de cima da minha janela. – respondeu Ritinha.
–Pois é, que estranho, já estávamos habituadas a ver-te à janela – disse Filipa.
– O que interessa é que fizemos uma nova amiga – exclamaram ao mesmo tempo.
– Ritinha, és muito bem vinda às nossas brincadeiras, vamos começar o jogo? – perguntou Andreia.


Daí em diante, quase todos os dias, as cinco meninas encontravam-se no pátio para brincar, jogar ou apenas para conversar. Nunca mais se separaram e ficaram grandes amigas.
imagem de Suana Tavares
Autoria: Sandra Simões

3 comentários:

T disse...

Obrigada pelas simpáticas palavras no blog d'Agenda. Até breve!
Bjs

MÓNICA disse...

Achei lindo!
Demonstra como a solidão e a tristeza nos pode provocar uma doença fisica, sem explicação aparente!
bjks

Anônimo disse...

Sandra! Fantástico já li e reli .... Muito bom!